(Re)Nasce Uma Estrela (1954)

terça-feira, 10 de agosto de 2010
Quantos momentos cinematográficos permanecem indeléveis a nossa memória, distintos e únicos? Eu sei que já fiz essa pergunta em algum outro post, e que esse é um tema que eu poderia passar meses discutindo, pois a lista interminável. Aliás, poderia facilmente começar pelo meu filme e musical favorito de todos os tempos, "A Noviça Rebelde", mas isso é burburinho para outra hora e oportunidade.

Hoje estou aqui para falar de um filme – um musical, que para aqueles que não sabem, é provavelmente meu gênero cinematográfico preferido – cuja importância para a carreira de Judy Garland foi imenso, nos mais diversos aspectos.


Nasce Uma Estrela (1954) surgiu quando o produtor Sid Luft, que na época era casado com Judy Garland, propôs ao diretor George Cukor, a idéia de realizar um “remake” do filme original lançado em 1937, tendo sua esposa como “leading lady.” Anteriormente Cukor havia declinado o convite de dirigir a versão de 1937, por achar que a história era muito semelhante a de seu próprio filme lançado em 1932, chamado “What Price Hollywood?”

Mas desta vez a proposta havia sido tentadora demais para ser recusada – além do “remake” ter sido seu primeiro musical e longa-metragem filmado em tecnologia “technicolor”, ele estaria na companhia de dois gigantes: Moss Hart, roterista do filme, a quem podemos relembrar como diretor do igualmente maravilhoso musical “My Fair Lady”, e a grande protagonista, para qual este remake estava sendo feito, Judy Garland.



As filmagens iniciaram-se em outubro de 1953 e Cukor teve que lidar com o lado obscuro de estar lado a lado com uma estrela. Judy não trabalhava há quatro anos e sua dependência ao álcool se tornava inegável à indústria, de maneira que seu comportamento “on-set”, junto ao seu comprometimento se tornava pouco confiável. Não obstante, Garland sofria com o famoso, porém detestável, efeito “sanfona”, emagrecendo e ganhando peso com freqüência, além de enfrentar outras questões psicológicas.


Sendo assim, seria redundante dizer que a produção do filme, que durou em torno de dez meses, não foi o que chamaríamos de mar-de-rosas. Contudo, é válido acrescentar que “Nasce Uma Estrela” é de Judy Garland, por direito e merecimento. Não por ter não ter tido um elenco sólido e competente, ou por  ter interpretado todas as canções da fabulosa trilha-sonora, e ainda por ter seu marido como produtor do longa-metragem; pelo contrário, como verdadeira “tour-de-force”, Judy deu um show e o transformou no melhor filme de sua carreira, através de uma atuação intensa, carregada de um “jê nes sais quois” que transcende as barreiras do tempo e reafirma o que já sabíamos: Judy Garland era uma estrela, capaz de criar aquele momento o qual eu havia mencionado anteriormente, que se torna inapagável em nossas memórias.


Certamente a cena preferida pela maioria é onde Esther Blodgett (Judy Garland) canta a inesquecível “The Man That Got Away” em um bar de segunda, mas a minha escolha é a cena onde acompanhamos o oficial adeus à Esther e damos um “hello” ao começo de carreira de Vicky Lester, com a sua estréia cinematográfica. A sequência ilustra toda a capacidade vocal de Judy Garland, e reafirma sua qualidade como grande “entertainer”, conferindo-lhe ainda o direito de ter sido a grande vencedora do Academy Awards, ao qual ela foi indicada como Melhor Atriz in a Leading Role; direito este que lhe foi tirado por Grace Kelly, que levou a estatueta por sua atuação em “The Country Girl”. (Nada contra Grace ou o filme, que a propósito, ainda não assisti)

À nível de curiosidade, a sequência a qual me refiro foi uma das últimas cenas a serem acrescentadas ao filme, visto que os chefões da Warner Bros. Studios alegavam que até então, não estava claro que Vicky Lester havia se tornado uma estrela. Nela, passamos a ver um rápido filme dentro do filme, onde Judy interpreta o medley de “Born in a Trunk,” cuja duração é de mais ou menos 10 minutos no longa-metragem de estréia de Vicky.


Mais que o grande número de balé realizado durante esta cena, que era tão característico dos musicais produzidos pela MGM, é preciso falar da música. “Born in a Trunk”, cuja letra e música foram compostas por Roger Edens e Leonard Gershe, é um resumo da personagem que Vicky está interpretando em seu musical. A história é de uma moça que nasceu e cresceu nos bastidores de um teatro, graças aos pais que eram artistas, sendo testemunha do suor, dedicação e trabalho que o ofício requer. 

Em seguida, trechos da canção "I’ll Get By", do Roy Turk e Fred E. Ahlert (que a propósito, foi cantada por Marilyn Monroe quando ela esteve no Actors Studio, e que de acordo com relatos, emocionou a platéia) é cantado de maneira a dar continuidade na narração da biografia da personagem.

Trecho de "I’ll get By" 
“Eu aprendi rapidamente os truques do negócio, e ficava ensaiando após todos terem ido embora. Com os truques, eu aprendi sobre tradições, e a mais difícil delas é saber que, apesar de tudo, o show deve continuar."


Depois temos “You Took Advantage of Me”, composta por outra dupla preferida, Lorenz Hart e Richard Rodgers. Após “The Black Bottom”, por Perry Bradford, Vicky conta que sua personagem finalmente consegue ir para New York, imaginando que irá cantar para a “high society”. Temos então “The Peanut Vendor”, por Moises Simons e “My Melancholy Baby”, por Ernit Burnett e George A. Norton. Fechando com chave de ouro, Vicky (ou Judy) eternize "Swanee", por Gershwin (brilhante!) e Ceasar

“Swanee! How I love you, how I love you, my dear old Swanee. I'd give the world if I could only be sittin' on my mammy's knee. I love the old folks, I love the young folks. Oh my bunny, let me love ya more than Alabamy! Mammy, mammy, my dear old mammy, your wanderin' child will wander no more when I get to that Swanee shore!”



Então está aí, o meu momento de "A Star is Born", que ficará para sempre em minha memória: Judy em seu melhor, emocionando, transpirando talento, reafirmando que ali renascia uma estrela, sentada na beira de um palco, cantando a história de tantas outras... “So I can't quite be called overnight sensation, for it started many years ago, when I was born in a trunk at the Princess Theatre, in Pocatello, Idaho.”


My Funny Valentine: mil vozes e uma só canção.

quarta-feira, 28 de julho de 2010
O ano era 1937, e Richard Rodgers e Lorenz Hart haviam composto letra e música para o espetáculo “Babes in My Arms”. Dois anos mais tarde, em 1939, este musical da Broadway seria adaptado às telonas do cinema, sendo estrelado pela dupla Mickey Rooney e Judy Garland.



Dentre as várias canções do espetáculo que viriam a ser eternizadas – “Where or When”, “I Wish I Were in Love Again” e “The Lady is a Tramp”, só para citar algumas – uma recebeu destaque especial ao ser popularizada através do Jazz anos mais tarde.

“My Funny Valentine”

O conceito era simples, quase clichê.
Em sua autobiografia, Richard Rodgers conta que a canção “My Funny Valentine” foi escrita para Susan Ward, a protagonista da história. Nela, Susan satiriza alguns atributos físicos do seu interesse amoroso Valentine White. Entretanto, ao final ela pede que ele não tente mudar, pois são seus “defeitos” que a cativam. Contudo, mais do que o belo arranjo composto ou as belas palavras escritas por "Rodgers e Hart", a verdadeira receita para o sucesso, e por fim, eternalização desta música, estaria nas mãos – ou melhor, nas vozes daqueles que a cantariam nos anos por vir.


Tudo começou com a vocalista da Orquestra Hal McIntyre Ruth Gaylor, que colocou a canção no décimo-sexto lugar das paradas da Billboard por uma semana, com a sua gravação em 1945. Ainda sim, essa notoriedade foi efêmera e logo "My Funny Valentine" entrou em outro período de esquecimento, ficando à mercê dos cantores dos cabarets da cidade de Nova Iorque, que tinham por tradição manter essas grandes melodias dos anos 20 e 30 vivas.

A música só seria resgatada em 1952, pelo tocador de trompete Chet Baker, que até então era conhecido exclusivamente por ser um instrumentalista; e depois verdadeiramente popularizada, através da regravação na voz de Frank Sinatra, que a incluiu no repertório do seu álbum Song for Young Lovers. Desde então, artigos indicam que a música tenha sido regravada em mais de 1300 álbuns/cds, sendo interpretada por mais de 600 músicos diferentes.

Ella Fitzgerald, por exemplo, regravou-a em 1956, no seu álbum Ella Fitzgerald Sings the Rodgers & Hart Songbook.


Behold the way our fine feathered-friend
his virtue doth parade.
Thou knowest not my dimwitted friend,
the picture Thou hast made.

E aqui está a versão instrumental de Chet Baker.


Thy vacant brow and Thy tousled hair
conceal Thy good intent.
Thou noble upright, truthful, sincere
And slightly dopey gent - you are...

Outra musa do Jazz, Sarah Vaughn, eternalizando a canção com sua interpretação.


My funny valentine
Sweet comic valentine
You make me smile with my heart.
Your looks are laughable, unphotographable
Yet you're my favorite work of art.

E por fim, quem eu obviamente não poderia deixar de fora, com uma interpretação dramática, de voz decididamente mais madura e completamente inesquecível: Julie Andrews.


Is your figure less than Greek
Is your mouth a little bit weak
When you open it to speak, are you smart?
Don't change a hair for me
Not if you care for me
Stay little valentine stay.
Each day is Valentine's Day.

Realidade e ilusão em "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?"

domingo, 18 de julho de 2010
Em plena madrugada, um casal cambaleia lado a lado na escuridão, no caminho de volta ao seu lar, lugar que se tornará palco de uma longa noite regada a álcool, jogos e exorcização de ressentimentos: é desta maneira que somos recepcionados no fabuloso Quem Tem Medo de Virginia Woolf (1966), uma peça teatral de Edward Albee, adaptada para o cinema sob direção do então estreante Mike Nichols.


Martha e George (Elizabeth Taylor e Richard Burton, respectivamente) - casal de meia-idade que nutre um relacionamento posto de antemão como doentio, está a passos de recepcionar Nick e Honey (George Segall e Sandy Dennis), consideravelmente mais jovens, a quem presumimos serem mais felizes na vida matrimonial. O motivo para tal encontro em plena madrugada dá-se pelo desejo de Martha atender ao pedido do pai, presidente da universidade onde ambos George e Nick lecionam, de serem cordiais ao casal recém-chegado.

 
No lar de Martha e George somos introduzidos ao caos de suas vidas. Martha é de um comportamento verdadeiramente compulsivo e sem pudores; seu agravante, obviamente, é a bebida; e se Martha escolhe distribuir insultos ao marido deliberadamente, só descobrimos no desenrolar da madrugada. Enquanto Martha destila o desdém por seu marido diante de seus convidados, observamos o ego de George, a quem a princípio se mostra indiferente a crueldade de sua mulher, ser dilacerado emocionalmente e fisicamente, transformando-se num sádico em um curto espaço de tempo, tão cruel quanto à própria Martha.


Onde morre a ilusão e nasce a realidade, é o que constantemente nos perguntamos durante o filme.
À medida que os jogos mentais de George e Martha transcorrem, sua cólera transpõe as nossas telas e nos atinge pessoalmente, nos transformando em testemunhas involuntárias de uma das maiores e constrangedoras lavações de roupa suja da história do cinema. Daí, ficamos a par das histórias e confusões deixadas para que o expectador construa seu próprio ponto de vista.


A primeira delas, narrada por George, é sobre um garoto que acidentalmente mata a sua mãe durante a juventude, e que anos mais tarde também mata o pai acidentalmente, tendo como destino final uma vida isolada num centro psiquiátrico em estado catatônico. Depois descobrimos que George utiliza a mesma temática para escrever um livro não-publicado, e se a história é autobiográfica ou não, não sabemos. Embora Martha nos conduza a pensar que sim, uma leitura psicológica diz que talvez isto seja reflexo dos sentimentos de culpa que George tem em relação aos próprios pais; e o estado catatônico ao qual o garoto passa o resto da vida condiz com a sua própria incapacidade de despir a sua alma e expor os seus demônios.


Quanto ao filho pródigo a quem Martha tanto faz referência, apesar da contestação de George, me atenho apenas a falar que ele é a peça-chave do filme. Sem a sua menção não entenderíamos os demônios acerca da vida pessoal de George e Martha, e tampouco ficaríamos a par “dos podres” do jovem casal, cuja vida é em muitos aspectos similar a do outro casal. Para eles, esta noite servirá como uma experiência catártica, uma verdadeira “wake-up call.” 



E ao falar em realidade, não podemos esquecer que a paródia de "Quem Tem Medo do Lobo Mal", é em verdade uma espécie de trocadilho intelectual concernindo à inabilidade de nós aceitarmos quando a realidade bate na porta, tomando como preferência criar situações ilusórias ao encará-las de frente. Para George e Martha, quando o filme chega ao amanhecer do dia e atinge o seu ponto final, só podemos esperar que eles possam se desvencilhar do medo para encarar a realidade do desconhecido e começar suas vidas do zero.


Quem Tem Medo de Virginia Woolf se transforma em um filme dolorido, como uma dose de uísque engolida a seco, queimando nossas entranhas. É o nosso próprio “wake-up call” com relação ao perigo que ronda as mentiras e fantasias que construímos para o nosso bel prazer.


Taylor está assustadoramente boa, sendo capaz de inspirar nossa compaixão apesar de sua personagem ser frívola, venenosa, manipuladora, vulnerável, infantil. Ao passo que Martha se destrincha é que enxergamos a sua dor por ser capaz de machucar tanto o homem que ela ama – um dos maiores fatos consumados do filme é que este casal, acima do bem e do mal, se ama - e que entendemos que este é um comportamento fruto da sua falta de amor-próprio. Ela não se vê merecedora desse amor ou de qualquer chance de ser feliz, embora ela afirme que queira ser feliz. E é por essa habilidade de transpassar a idéia de que Martha é uma caricatura e transformá-la em um ser humano, é que Taylor foi consagrada pela Academia como Melhor Atriz em 1967. Esta é, sem sombras de dúvida, a sua melhor atuação.


Das oito indicações ao Oscar, o filme arrebatou cinco estatuetas – Melhor Atriz, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Direção de Arte, Melhor Cinematografia e Melhor Figurino.

"George, who is out somewhere there in the dark. Who is good to me. Whom I revile. Who can keep learning the games we play as quickly as I can change them. Who can make me happy and I do not wish to be happy. Yes, I do wish to be happy. George and Martha — sad, sad, sad. Whom I will not forgive for having come to rest, for having seen me and having said, "Yes, this will do". Who has made the hideous, the hurting, the insulting mistake of loving… me. And must be punished for it. George and Martha — sad, sad, sad."

quotes for life - parte 02.

quarta-feira, 14 de julho de 2010
"I hope, perhaps, if I’m remembered for anything, it will be for the joy of music and the gift that I’ve been given and that I tried to share."
Julie Andrews
A incapacidade de enxergar a própria grandeza é de causar indignação - só que na verdade, não. Enfim... Querida Julie, não há possibilidades para "caso": você sempre será lembrada por esse maravilhoso presente.

(Essa sou eu, quase viva, postando - mas não muito - após algum tempo longe daqui, só pra não dizer que abandonei meu blogzinho. E para vocês e para minha saúde: aquele abraço!)

Nada como uma boa secretária... (parte quatro)

domingo, 13 de junho de 2010
O término deste semestre letivo se aproxima e eu gradativamente vou ficando mais aliviada. Coisas boas têm acontecido durante as últimas duas semanas, embora eu deva admitir que sejam parcialmente assustadoras. De todo modo, é um medo bom (se é que isso seja possível), e que não deve me deter diante dos desafios que surgirão daqui pra frente. Com o tempo mais ou menos livre, vem a boa notícia de que terei mais chances de atualizar o blog. Entretanto, ainda não encontrei a inspiração apropriada pra voltar a escrever resenhas de filme. Logo, estou retornando com mais um trecho daquele livro “The Super Secs: Behind the Scenes with the Secretaries of the Superstars.” De antemão aviso que este é um capítulo longo, mas de todo especial, a meu ver, pois se trata de uma narração sobre os eventos em torno do casamento de Julie e Blake.

(The Super Secs: Behind the Scenes with the Secretaries of the Superstars!)

Lá eu estava tomando sol na beira da piscina do Blake, em um dia de Novembro, no tipo de clima que a maioria das pessoas amaria, caso fosse o mês de Junho, mas ao contrário do que parece, eu não estava simplesmente vadiando – eu estava lendo um roteiro o qual Blake queria a minha opinião, e, simultaneamente, estava aproveitando para pegar um bronzeado. Eu era tão pálida quanto um marshmallow, e para que não ficasse a marca, tinha desamarrado as tiras da parte superior do meu biquíni. Com a minha sorte, eu já estaria tostada na hora em que terminasse de ler o script. Durante isto, pensava também que no dia seguinte eu teria que escrever alguns rascunhos de cartas para Blake, e imaginei que talvez isso também pudesse ser feito na área externa.
Absorta em minhas idéias, eu fui interrompida pelo som da voz de Blake, que me chamava. “Linda!” Quando olhei para cima, o encontrei sentado à beira da minha espreguiçadeira.
“Deve ser um roteiro e tanto, hein? Você nem notou que eu estava aqui!”
“É, acho que eu estava mesmo bem entretida,” eu respondi, reparando na expressão que ilustrava o seu rosto. O seu sorriso lembrava aquele do Gato Cheshire, de Alice no País das Maravilhas.
“Então, qual é a boa?” Eu perguntei. “Já sei. você conseguiu fechar o negócio relacionado ao seu filme.”
“Não, é algo bem mais importante. Eu…” Ele parou e não prosseguiu, fazendo somente uns movimentos incompreensíveis com as mãos.
“Tá, diz logo. O que é?” Eu nunca tinha visto o Blake agindo desse jeito.
Ele agarrou a minha mão e levantou, me arrastando pra longe da minha espreguiçadeira. “Aqui não, vamos à edícula.” Eu o segui obedientemente e depois me dei conta de que a parte superior do meu biquíni estava deslizando, mostrando bem mais que um mero decote, mas pelo o que eu havia percebido isso pouco importava, pois a mente de Blake estava em outro universo.
Ele, então, me sentou no sofá de vime da edícula e depois se apressou para que pudesse trancar todas as portas. Aproveitando a chance, amarrei as tiras do meu biquíni, soltando um suspiro, mas que não era de completo alívio, já que eu não tinha certeza de quão bem eu teria amarrado o biquíni, e em seguida sentei esperando ansiosamente.
Blake voltou e sussurrou, “Julie e eu iremos nos casar.”
Eu dei um pulo e exclamei “CASAR? QUE MARAVILHA!” dando-lhe um grande abraço, antes que eu pudesse lembrar que estava toda lambuzada de bronzeador. Blake se recuou – mas do grito, não do óleo bronzeador.
“Shh…” ele sussurrou novamente. “É um segredo, e nós não iremos contar a ninguém,” ele disse, olhando furtivamente para os lados, como se houvesse a possibilidade de ter alguém nos vendo ou nos escutando.
Eu diminuí o tom da minha voz, mas não do meu entusiasmo. “Ah, Blake, eu estou tão feliz por vocês dois! Quero dizer, isso não é de causar nenhum espanto, pois você e a Julie são o casal mais perfeito. E eu amo tanto a vocês dois, e isso é tão romântico... E vocês se amam tanto, eu sei que vocês serão muito felizes,” eu disse, com os olhos enchendo de lágrimas.
Blake me entregou um lenço e me sentou novamente no sofá de vime, puxando uma cadeira em seguida, para que ele pudesse sentar em frente a mim.
Suavemente ele disse, “Nós iremos nos casar amanhã.”
“AMANHÃ!?!” Eu gritei.
“Linda, isso é um segredo!” Ele retrucou.
Eu diminuí o volume da minha voz outra vez. “Desculpe-me, mas como é que vocês vão conseguir se casar amanhã? Vocês não têm a licença e os exames de sangue, e aonde vocês irão arranjar a pessoa pra oficializar e organizar a cerimônia? Ah, você não tem como casar amanhã, Blake. Você tem aquela exibição de Darling Lili à tarde, e não pode faltá-la. Além de todos os executivos da Paramount, Bob Evans também estará lá.”
“Linda, o plano é o seguinte”, ele iniciou, usando um tom de conspiração que dava a impressão de nós estarmos organizando um assalto a banco ao invés de um casamento. “Nós iremos nos casar às 13 horas, no jardim próximo a cascata, na nossa área externa, porque aquele é o canto preferido da Julie. Nós já falamos com o Reverendo Smith e ele vai oficializar a cerimônia, tenho certeza que podemos confiar que ele não falará nada. Quanto ao exame de sangue, nós o fizemos hoje de manhã, com o Dr. Tanney. Amanhã de manhã nós sairemos às oito da manhã para iremos a algum lugar fora de Los Angeles para conseguir a licença. Dessa forma a impressa não irá descobrir nada. Como você pode ter percebido tudo havia sido pensado antes. Não é uma grande surpresa?”
“E com relação às crianças – vocês irão contar a eles?” eu questionei, me sentindo pouco satisfeita. “E a equipe de funcionários? Eles estarão aqui amanhã. E quanto a exibição de Darling Lili, você quer que eu tente cancelá-la?
“Uma coisa de cada vez,” foi o que ele respondeu. “Primeiramente – não, nós não iremos contar às crianças até que eles voltem da escola, caso contrário eles vão querer faltar à aula Segundo – a Julie contará à equipe de funcionários amanhã de manhã. Terceiro – você está coberta de razão, a exibição de Darling Lili é de extrema importância e não devemos cancelá-la, então nós iremos a ela de qualquer jeito. Agora Julie e eu iremos olhar algumas alianças. Vejo você amanhã.”
Depois disso eu retornei à minha espreguiçadeira e ao roteiro, apesar de estar muito exaltada para continuar a ler e me bronzear. Paciência, isso era um sinal de que passaria o resto da minha vida parecendo um marshmallow. Eu estava muito preocupada pensando que eu talvez fosse explodir, visto que eu estava morrendo de vontade de ligar para o Ron, que era o namorado com quem eu vivia, para compartilhar a novidade. Claro e evidente, eu não podia.
Voltei pra edícula, tomei um banho pra tirar o óleo bronzeador, vesti a minha calça e camisa de algodão, e passei o resto da tarde rabiscando, quando não perdida em meus devaneios. Como era maravilhosa essa história da Julie e do Blake! A decisão de casar era completamente apropriada para eles dois... Eles estavam profundamente apaixonados, sempre doando e partilhando, e mal conseguiam manter as mãos longe um do outro, sempre cheios de beijos e abraços. [...]
Meus pensamentos voaram até chegar a hora de ir para casa […] Na manhã seguinte eu não tive a menor idéia de que roupa eu deveria usar para ir trabalhar. Ron poderia perceber que algo de anormal estaria acontecendo caso eu usasse um vestido, mas em contrapartida eu não poderia usar calças em um casamento, poderia? E o que será que Julie iria usar? Eu não queria usar algo que precisasse de muito trabalho.
A melhor solução foi colocar um par de jeans e uma camiseta, e esperar até que Ron estivesse entretido em suas pinturas para que pudesse colocar meu vestido de lã bege, sapato marrom e meia-calça em uma sacola dentro do carro. Às pressas, eu disse adeus e fugi.
Se o plano de Blake fosse seguir o cronograma, ele e Julie estariam indo naquele instante para Orange County. Logo, pensei, eu teria tempo para fazer uma parada a caminho do trabalho para comprar um presente para Julie.
Fui dirigindo até uma loja cujo ridículo nome era Lindas Noivas de Beverly Hills. A vitrine era cheia de vestidos, véus, além de um bolo de casamento de cinco camadas. “Algo velho, algo novo, algo emprestado e algo azul,” eu disse a mim mesma enquanto atravessava a porta em formato de um cupido, e ao adentrar imediatamente o encontrei – era uma cinta-liga azul de cetim e renda. Não era muito original, mas era perfeito.
“Vou levá-la,” eu disse à vendedora.
Após a compra voltei ao carro, e cantei enquanto dirigia até a casa de Blake. O dia estava glorioso, ainda mais bonito que o dia anterior, servindo como um maravilhoso presságio.
Continuei cantando até chegar à edícula, somente parando quando parar tirar a camiseta e colocar o vestido. Examinando o meu reflexo no espelho, penteei meu cabelo pela última vez, peguei a cinta-liga azul e desci até a casa para pegar um copo de café. Quando entrei na cozinha, Lottie Hope, a cozinheira, parou a sua mistura para me olhar, e disse “Você está muito bonita, querida. Você deve estar arrumada para ir a um casamento.”
“Obrigada,” eu respondi sorrindo. “A dona Andrews lhe contou?”
“Contou sim”, disse Lottie, enquanto retornava à sua mistura, “E eu não posso deixar que ela case sem ao menos ter um bolo.”
Eu sorri mais uma vez, peguei meu café e atravessei a casa a caminho do meu escritório, e reparei que a casa aparentava estar recebendo um toque especial. Os cristais, assim como os azulejos do piso, pareciam ter estar brilhando mais que o normal, e as almofadas da sala de estar pareciam estar mais amaciadas. Quando eu avistei Sarah, a empregada, polindo a prataria, confirmei minha suspeita de que tudo estava recebendo um trato a mais. A equipe de funcionários estava ansiosa, querendo que tudo saísse perfeito.
“Flores!” Subitamente pensei, “É disso que eu precisava!” Corri ao meu escritório e liguei para o florista, bajulando-o – ok, na verdade eu o subornei com uma foto autografada pela Julie para a filha dele – para que ele entregasse os arranjos dentro de uma hora; depois retornei a cozinha para conversar com a Lottie.
“Não sei por que estou tão nervosa, Lottie. No estado de ansiedade em que me encontro as pessoas até poderiam acreditar que quem está casando sou eu”, eu falei enquanto beliscava as tiras de aipo que ela estava cortando.
“E você deveria estar, garota.” Ela retrucou.
“Este cheiro divino é de que?”
“É porco, querida. Você não pode ter um casamento sem ter um almoço. Toda essa comoção vai deixar as pessoas com fome,” ela argumentou. Eu concordei, pegando mais uma tira de aipo, e ela continuou explicando, “Por isso, nós teremos porco, salada e queijos. Estou organizando um pequeno buffet no foyer. Você consegue pensar em alguma outra coisa que eu poderia estar esquecendo?”
“Não, tudo parece ótimo. Olha lá, alguém está na porta.”
Eu respondi à campainha e dei boa vinda ao Reverendo Smith na sala de estar. Logo após termos sentado, a campainha tocou pela segunda vez. Dessa vez era o Dr. Tanney e a sua esposa. Ele carregava uma câmera e explicou que achava que Julie e o Blake iriam gostar de ter algumas fotografias tiradas.
Lottie trouxe uma bandeja com café e biscoitos e nós sentamos, conversando, até eu olhar para o meu relógio e perceber que já era meio-dia e vinte e cinco. “Não tinha percebido que já era tão tarde,” eu disse agitada. “Onde estão os noivos? Blake sempre disse que a Julie se atrasaria para seu próprio casamento,” eu falei, forçando uma gargalhada, “Mas nunca pensei que ele também estivesse referindo-se a si próprio.”
Os dez minutos seguintes pareceram durar uma eternidade, e quando escutei o carro deles chegar, corri para cumprimentá-los. “Onde vocês estavam?” balbuciei. “Estávamos ficando preocupados.”
“Você acredita que nos atrasamos porque Julie estava com um desejo desesperador por donut?”
“Um donut? Eu não sabia que você era obcecada por donuts, Julie.”
“Eu não sou” ela confessou, “mas de repente me bateu uma vontade enorme de comer um.”, ela continuou, sorrindo timidamente. “Eu não pude me conter.”
Blake a interrompeu com um beijo e em seguida acrescentou, “Não explique nada, querida, pois estamos atrasados.”
Eles me seguiram até a sala de estar, cumprimentaram a todos, e chamaram o Reverendo Smith para uma rápida conversa particular. Após alguns minutos Blake notou que já era meio-dia e quarenta e cinco minutos. “Querida, é melhor nos arrumarmos”, ele anunciou. Julie se levantou espantada. “Isso significa que eu só tenho quinze minutos para me arrumar para o meu casamento!”
Fui ao meu escritório, peguei a cinta-liga que estava embrulhada em papel de presente, e dei à Julie antes que ela e Blake subissem para se arrumar. Cumprimentei-a com um “Feliz dia de Casamento” e dei-lhe um beijo.

Blake retornou cinco minutes depois, e eu tive que olhar duas vezes para ele para acreditar. Nunca tinha o visto usando um terno. Era verde escuro, trespassado, com uma lapela larga; por baixo usava uma blusa branca e uma gravata listrada. Arrumado daquele jeito ele parecia ter saído de uma página da revista Gentleman’s Quartely. Nervoso, ele sentou na sala de estar conosco, esperando por Julie, quando de repente se levantou e correu para a área externa, pedindo que eu o acompanhasse. Obediente, porém confusa, eu o segui.
Lá fora ele olhou para a encosta, deixando o seu lado diretor tomar conta. “É, acho que irá funcionar!” Foi o que ele afirmou. Eu perguntei o que iria funcionar e ele respondeu, “O ângulo, é perfeito. Venha e me ajude a configurar o gravador de vídeo. Nós iremos filmar a cerimônia para que as crianças tenham a chance de assisti-la assim que chegarem após a aula.”
Juntos nós pegamos a câmera, o tripé, um cabo bem longo, e subimos até a colina. Sempre o profissional, Blake focou a câmera da lente no pequeno espaço gramado onde a cerimônia seria realizada. O jardim era realmente belo. À direita havia árvores e flores, e a casa à esquerda. A encosta onde nós estávamos era copiosa e havia ainda mais árvores, além de flores de todos os tipos, com cores e perfumes mais variados. No centro, havia rochas por onde desaguava uma cascata.
Blake ligou o cabo à câmera e nós retornamos à unidade de gravação, que era ao lado da casa. Lá, ele ligou a outra ponta do cabo e explicou, “A câmera funcionará automaticamente. Tudo o que você precisa fazer é ligar o gravador quando eu der o sinal.”
Em seguida Julie apareceu – sua beleza natural ainda mais realçada. Ela havia escolhido um vestido de malha na cor salmão, com a borda branca. Seu sorriso era confiante e a única coisa que denunciava seu nervosismo era a cor pronunciada de suas bochechas. Ao andar em minha direção, ela levantou a saia do vestido o suficiente para que pudesse revelar a cinta-liga, e o Dr. Tanney aproveitou para tirar a primeira foto.
“Estamos prontos para começar?” perguntou o Reverendo Smith.
“Antes disso, poderiam esperar um minuto? Seria o tempo suficiente para eu ir à encosta. De lá tiraria as melhores fotos,” Interveio Dr. Tanney. Então nós o esperamos enquanto ele subia.
“Está tudo nos conformes, Herb?” Blake questionou, e o médico afirmou, dizendo que sim. Blake me deu o sinal, liguei o gravador de vídeo, e a cerimônia se iniciou.
Enquanto eu escutava o sermão simples, porém eloqüente, senti como se tivesse sendo engasgada. O grande amor que Julie e Blake sentiam um pelo outra era tão óbvio, e estava tão descaradamente estampado em seus rostos, que eu comecei a chorar.
Assisti ao resto da cerimônia debaixo de uma verdadeira cascata de lágrimas. Julie e Blake se beijaram, e eu corri até eles, abraçando e beijando-os, desejando-lhes muita felicidade. Tanney desceu da encosta correndo e a equipe de funcionários quietamente foi para a área externa se unir a nós.
Em seguida Lottie sugeriu que almoçássemos, e nós todos a acompanhamos a caminho do Buffet, no interior da casa. Estávamos com os pratos em nossas mãos quando Blake sugeriu que rodássemos a fita. Animados, nos reunimos ao redor do gravador de vídeo e Blake iniciou a máquina, e depois se distanciou. Nada aparecia na tela da TV. Estava branco. Ele olhou pra mim e me perguntou se eu tinha certeza de que havia ligado o gravado. Eu respondi que sim, tinha certeza absoluta.
Ele tentou ligar e religar a máquina várias vezes, mas sem nenhuma sorte. Depois, tendo uma idéia, decidiu pegar o cabo e segui-lo até a câmera colocada na encosta. Lá, ele descobriu que o cabo estava desconectado, e o levantou para nos mostrar o que tinha dado de errado.
“Eu pensei que talvez tivesse mesmo tropeçado em alguma coisa,” Dr. Tanney finalmente admitiu.
Blake reconectou o cabo, desceu a encosta e virou-se para a sua mulher e atriz. “Querida, que tal uma nova tomada?”
Ela concordou, dizendo, “Claro, Blackie, você sabe que todos dizem que eu nunca fico satisfeita com a primeira tomada.”
Ele se virou para o Reverendo Smith e perguntou se haveria algum problema em repetir a cerimônia. O Reverendo sorriu e disse que não. Pelo contrário, iria fortalecer ainda mais os laços do matrimônio.
“Bem”, Blake comentou, “Parece que essa produção também vai se atrasar um pouco em relação ao seu cronograma,” e todos rimos. Depois, quando ele e Julie se posicionaram novamente para a cerimônia, ele chamou o Dr. Tanney. “Herb, por favor, fique em algum lugar onde nós possamos manter o olho em você.”
Mais uma vez, Blake sinalizou para mim e eu liguei o gravador de vídeo. Em seguida, deu-se inicio a segunda cerimônia, que a propósito, tinha uma conotação um pouco diferente, afinal, era meio absurdo que um diretor e uma atriz tivessem que passar por uma segunda oficialização do casamento, só pelo benefício de ter o registro em vídeo.
Quando o Reverendo Smith perguntou a Julie, “Você aceita a este homem...” ela olhou para Blake com a mesma ternura e amor com a qual tinha olhado para ele durante a primeira oficialização. Mas eu percebi que a boca de Blake havia começado a se contorcer, e eu soube naquele instante que ele estava tentando desesperadamente conter o riso. Abafei a minha própria risada, pois eu sabia que se eu gargalhasse, Blake não resistiria e a cerimônia estaria arruinada. Tentei me focar em Julie, que ainda mantinha a pose de noiva perfeita, mas a sua seriedade, em contraste com a solenidade falsa de Blake só aumentava a minha vontade de rir. Finalmente consegui me focar no chão, enquanto escutava barulhos escapando da boca de Blake – eram risadas disfarçadas. Mordi meu lábio, minha bochecha e até mesmo me belisquei, mas não houve jeito. Por fim, enfiei na boca o mesmo lenço que havia usado anteriormente para enxugar minhas lágrimas.
Graças a Deus que a cerimônia havia sido curta, ou eu teria sufocado. Aliás, quase sufoquei quando me convocaram para que eu repetisse a parte em que eu corria em direção ao casal, para cumprimentá-los calorosamente no final.
Com o replay chegando ao fim, todos se reuniram novamente ao redor do gravador de vídeo. Blake deu um passo para trás e o vídeo do casamento apareceu na tela. Com um grito, Blake nos avisou de que estava registrado, e então fomos almoçar. […] Quanto a exibição de Darling Lili, tudo transcorreu nos conformes, apesar de eu ter ficado surpresa por ninguém ter comentado as nossas roupas chiques. Alguém só chegou a perguntar a Blake o que ele tinha passado a manhã fazendo, no que ele respondeu que estava resolvendo alguns negócios, piscando para mim.
Eu retornei à casa com os recém-casados, me apressei até a edícula para trocar de roupa, joguei meu vestido e o resto das coisas na mala do carro, e corri pra casa para encontrar com Ron. […] Apesar de todo o sigilo, a imprensa descobriu logo que o casamento havia se passado. Algumas horas após Julie e Blake terem tirado a licença, eles foram descobertos por um repórter de Orange County, logo, quando no jornal das 11, Ron e eu escutamos a notícia de que “A Atriz Julie Andrews se casara com o Diretor de Filmes Blake Edwards naquela tarde...” Ron se virou pra mim e questionou se eu sabia daquilo.
Eu só pude suspirar e responder, “Você não acha isso romântico?”

there's no place like home.

quinta-feira, 10 de junho de 2010
Estou (quase) viva e com saudades do meu cantinho... Espero poder voltar em breve.

Aviso aos navegantes...

domingo, 23 de maio de 2010
Andava descontente com o nome do blog, que surgiu diante de uma concepção bem distinta da que existe atualmente. Passei os seis últimos meses pensando com carinho na possibilidade e finalmente encontrei coragem suficiente para mudá-lo.

Sejam, então, bem-vindos ao Burburinho de Outrora.
Mi casa is su casa.